ESTUDOS DE LITERATURA NO CENÁRIO PÓS-DISCIPLINAR

DA REDE DIGITAL

 

Heidrun Krieger Olinto - PUC-Rio

 

 

Como falar de identidade em relação à literatura e à sua situação comunicativa no momento da passagem da mídia impressa para a tecnologia eletrônica digital?

As questões que gostaria de submeter a uma reflexão referem-se em primeiro lugar à categoria da ficção, uma das convenções e estratégias mais estáveis na história da literatura ocidental que conferem supostamente identidade aos discursos literários e, em segundo lugar, as questões referem-se à conceituação do circuito comunicacional que dá visibilidade e materialidade ao fenômeno literatura.

Para tornar plausíveis os meus argumentos parece-me ilustrativo um olhar retrospectivo sobre projetos de produção literária e manifestos de sua teorização.

A história da literatura, além de revelar explicitamente desejos, oferece inúmeros experimentos que hoje podem ser lidos como antecipação das possibilidades radicais oferecidas pela escrita virtual em redes digitais (Idensen 1996:150). Um deles, o projeto utópico da obra em movimento, realizado no século XIX, Le livre de Mallarmé – ainda que apenas idealizado como objeto móvel, plural, composto de elementos polimorfos e ilimitados, reforçando a percepção de um mundo de simultaneidades e metamorfoses contínuas, junto com a exortação de Lautréamont de que a poesia devia ser uma produção de todos e não restrita a um sujeito autoral único – inaugura projetos perseguidos de diversos modos durante o século XX. Entre várias tentativas de criar máquinas poéticas combinatórias tornaram-se exemplares os ensaios e manifestos de Tristan Tzara e Raymond Queneau pelo acento dado ao papel ativo e concreto do leitor construtor. O primeiro sugeria: “(...) escolha um jornal, pegue uma tesoura, selecione um artigo desse jornal na dimensão do seu poema desejado. Recorte com cuidado e em separado todas as palavras. Jogue-as num saquinho. Misture-as de leve. Em seguida retire um pedacinho de cada vez. Cole-o numa folha de papel em branco na seqüência de sua retirada do saquinho. O poema terá a sua cara. E assim você será um poeta infinitamente original, de encanto irresistível, embora incompreendido pelos leitores.”  (Queneau, 1984).

 Tristan Tzara estimula a transformação do ato poético em mecanismo seletivo, que filtra certos fragmentos tirados do seu contexto original, reinserindo-os em nova configuração. De modo complementar, Queneau recomenda a fabricação de um livro em forma de máquina poética onde 10 sonetos devem ser impressos em 10 páginas, de tal modo que o leitor possa virar as páginas verso por verso e recombinar todos os versos de todas as páginas desta máquina combinatória de produção de poesia. No manual para o usuário podemos ler: ”Esta pequena obra (...) que permite a qualquer um criar, se quiser, cem bilhões de sonetos (...) é, por assim dizer, uma fábrica de poemas. (...) Cada verso, em número de 10, pode ser articulado com outros 10 versos distintos: haverá portanto 100 combinações distintas dos dois versos iniciais; se você quiser acrescentar um terceiro haverá 1000, e para os primeiros sonetos completos de 14 versos cada um, teremos, assim, o resultado antes mencionado (...).” Ou seja, cem bilhões de sonetos.

O romance Rayuela, de Julio Cortázar e o romance experimental de Marc Saporta, Composition I, – ambos publicados no início da década de 60 – de certo modo transformam em obra literária concreta esses projetos utópicos, antes apenas imaginados em forma de manifesto. Os novos objetos são moveis, plurais, compostos de elementos polimorfos, intercambiáveis, ilimitados. Enquanto o primeiro sugere timidamente diversos caminhos alternativos na leitura, desorganizando a estrutura linear da seqüência de capítulos, o segundo romance, na época vivido como pesadelo de todos os bibliotecários, liberta o livro da própria encadernação. Um romance em forma de jogo de cartas acomodando 150 folhas soltas, sem paginação e numeração, numa espécie de livro-caixa, ele levava às últimas conseqüências a possibilidade concreta de infinitas combinações por qualquer leitor.

No final da década de 60, Umberto Eco publica o seu ensaio, hoje clássico, “A poética da obra aberta” em que propõe um modelo teórico para o fenômeno literário, não fundado sobre a forma verbal objetiva da obra, mas sobre a relação fruitiva entre esta e seus possíveis receptores. Esta obra indefinida, plurívoca, aberta, se oferece ao leitor como feixe de possibilidades fruitivas, transformando-o em centro ativo de uma rede de relações inesgotáveis, “sem ser determinado por uma necessidade que lhe prescreva os modos definitivos de organização da obra fruída” (1968:41). Eco compara esta situação ao ouvinte de uma composição pós-dodecafônica descrita por Pousseur da seguinte maneira: ”Já que os fenômenos não mais estão concatenados uns aos outros segundo um determinismo conseqüente, cabe ao ouvinte colocar-se voluntariamente no centro de uma rede de relações inexauríveis” (49).

Simultaneamente começam a circular trabalhos teóricos que questionam a visão exclusiva do texto literário como artefato verbal confrontado pelo leitor numa atitude contemplativa, a favor do leitor interativo de que a estética da recepção e o reader- response criticism representam apenas os projetos sistemáticos iniciais.

Nas décadas subseqüentes, as formas de contextualização se tornam mais vastas e matizadas, privilegiando travessias transdisciplinares – inicialmente teorias dos atos da fala, teorias de percepção, da psicologia social, da sociologia do conhecimento e, atualmente, além de teorias sociais, culturais e políticas, teorias formuladas pelas neuro-ciências, pela antropologia, pela história, pelas ciências do caos.

Nesta situação de hipercomplexidade, parece impossível propor modos e estratégias de compreensão do fenômeno literário, atribuindo-lhe identidade sem sucumbir ao enquanto de metáforas belas e sedutoras que pluralizam o substantivo, que matizam o seu campo semântico pelo acréscimo de adjetivos e dão mobilidade à construção de seus sentidos: identidades em trânsito, identidades migratórias, diásporas, híbridas, formação identitária, construção, fabricação, combinação e recombinação, tensão, miscegenação, negociação identitária, etc.

Se hoje nos encontramos no limiar de uma era mediática que opera com sistemas de produção, transmissão e recepção de textos radicalmente novos que ameaçam o charme nostálgico e “a satisfação bucólica dos mundos europeus do livro” a partir de novas possibilidades da organização do saber, o hipertexto, e de novas qualificações para a ficção, o ciberespaço – como se lia recentemente na orelha do livro Literatur im Informationszeitalter organizado por Dirk Matejowski e Friedrich Kittler (1996) – precisamos, para além dos clichês de uma crítica da cultura que profecia o início de uma era catastrófica de analfabetos viciados em formas estéticas da visualidade virtual, lançar um olhar sobre as mudanças que ocorrem quando o livro, até agora figura emblemática de nossa civilização ocidental, abandona o lugar tradicional à procura de novos espaços e modos de atuação, e a literatura passa a disputá-los com incontáveis discursos rivais.

Como, no espaço de uma teorização da literatura, analisar criticamente essas condições alteradas que perturbam de modo radical a nossa noção de texto enquanto identidade caracterizável a partir de uma configuração verbal específica e a partir de um projeto de representação, sob suspeita desde os anos 70 em função de novos pressupostos epistemológicos? No momento atual, não se questionam apenas idéias de unidade e coerência pela suposição de um circuito interativo cognitivo entre texto-leitor, mas a partir da materialidade empírica de todo o processo comunicativo nas diversas instâncias constitutivas das relações concretas entre produtores, textualidades e consumidores, na qualidade de agentes sociais e históricos. Em outras palavras, os papéis e conceitos tradicionais atribuídos ao leitor, ao autor e ao texto como componentes desse circuito comunicacional do fenômeno literário precisam ser reajustados quando passamos da estrutura discursiva linear da tecnologia impressa da escrita – preto no branco – para a forma multimidiática da tecnologia eletrônica digital.

Uma das novas condições desse percurso para a noção de texto diz respeito ainda à própria maneira de compreender a articulação entre elementos e passagens do texto e esferas fora do âmbito de sua escrita. Ou seja, ela diz respeito à própria relação ficcional/factual e, portanto, ao conceito tradicional entendido como mimese. Estamos diante de uma questão tratada de modo particular no âmbito da tecnologia impressa baseada naturalmente na diferenciação explícita entre interior/exterior, mas que se revela, de certo modo, inadequada quando lidamos com uma textualidade virtual eletrônica (Gabriel 1997:71). Se esta situação não implica necessariamente o abandono de uma das últimas convenções preservadas que tentam esboçar uma identidade para o fenômeno literário, pelo menos demanda novas reflexões sobre categorias como ficcional, imaginário e real.

Uma das questões oportunas que deveria, assim, motivar os estudos literários contemporâneos diz respeito à descontextualização de novo tipo, ou melhor, à falta de contextualidade desses espaços hipertextuais. Enquanto o leitor tradicional buscava na literatura, eventualmente, vestígios para compreender o contexto real de sua vida em relação ao próprio processo identitário, tanto pessoal quanto coletivo, na situação hipertextual, ele precisa antes inventar contextos para construir possíveis sentidos. Entretanto, segundo perspectivas culturais pessimistas, o fluxo constante de fragmentos que emergem e desaparecem sem articulações duráveis facilita a construção de pseudo-contextos. Objeções similares circulavam também com insistência quando a mídia televisiva era problematizada como ameaça ao livro impresso, a partir do argumento de favorecer a criação de pseudo-realidades desconexas, pelo fato de abandonar a seqüencialidade linear das palavras, passíveis de serem percorridas por atos de leitura de índole contemplativa e durável.

            É óbvio que seria anacrônica uma reencenação da querela clássica entre apocalípticos e integrados que hoje celebram casamentos mistos, simultaneamente apocalípticos e integrados. Além do mais, é bom lembrar que sempre construímos castelos no ar, o que, afinal, só é problemático quando neles pretendemos morar. Por outro lado, estudos empíricos recentes sobre o comportamento da geração dos computerkids revelam o equívoco de vê-los apenas como figuras solitárias e associais vagando enclausuradas em seus mundos virtuais, privadas do convívio com outros e sem motivação para qualquer tipo de ação social (Burkhardt, 1998:312). Isto no entanto não significa que essas novas experiências midiáticas deixem imunes os nossos contextos simbólicos.      

Em todo o caso das dicotomias fundantes provavelmente uma das mais importantes nas sociedades européias, em geral, e da literatura, em particular, diz respeito à distinção entre real/não real. A tematização, aplicação e justificação destas dicotomias básicas encontra-se hoje em fase de profunda transformação, o que credita parcialmente ao desenvolvimento da mídia eletrônica. Pesquisas empíricas sobre condutas mediáticas importantes e peculiares nos adolescentes (americanos) indicam, por exemplo, que: “ they regard media as self-contained environments, having little correspondence with other realities or environments. TV is its own reality, radio is reality, film still another reality. Each creates its own space, its own time” (E. Carpenter citado por Schmidt 1994:279). Nesta ótica, os diferentes processos mediáticos caracterizam-se como mundos distintos sem que se pretenda necessariamente estabelecer correspondência e coerência entre eles.

Tais hipóteses indicam mudanças importantes nos modos perceptíveis dos indivíduos jovens socializados pela mídia eletrônica em contraste com aqueles fortemente socializados pela cultura impressa, que, internalizando uma linguagem verbal, buscam quase automaticamente uma referência com signos envolvendo uma atribuição de sentidos coerentes. Um comportamento que, em sintonia com a própria linearidade verbal das cadeias significantes, fundada sobre a distinção entre os signos verbais, e, ainda, em sintonia com uma semântica avalizada por uma teoria do conhecimento realista da experiência cotidiana, é assumido, sem dúvida, pela maioria dos falantes e sobretudo na experiência de sua realidade cotidiana.

Aparentemente os indivíduos socializados pela mídia audiovisual desenvolvem outras estratégias cognitivas de uso e tematização da mídia, por hipótese mais adequadas a esses desenvolvimentos técnicos. A simulação pelo computador, por exemplo, acelerou meramente um desenvolvimento técnico presente na televisão: a precariedade da origem das imagens, de sua produção e de sua possível recepção e avaliação. A estrutura digital básica de textos, imagens e sons demanda estratégias semânticas referenciais alteradas. Experimentos mostram ainda que se atribuem a textos e fotografias valores miméticos inferiores em comparação a processos de simulação pelo computador, porque a própria imagem da realidade já começa a transformar-se em realidade da imagem. Emergem assim problemas tanto para epistemologias realistas quanto para as experiências do nosso realismo da vida cotidiana. A questão que importa nesta situação pode ser formulada da seguinte forma: como elaborar a referência e falar em autenticidade em relação a estas superfícies imagísticas? Tal problema, por assim dizer, é minimizado pelos adeptos de teorias de conhecimento construtivistas de origens diversas, porque estes assumem de antemão que as imagens não reproduzem uma realidade objetiva, porque os próprios processos perceptivos não são miméticos, mas construtivos. Uma idéia já problematizada por Marshall MacLuhan na clássica afirmação de equivalência entre meio e mensagem, o que em teorias do conhecimento atuais se tornou praticamente consensual. Transferida essa questão para a mídia eletrônica, vale acentuar, então, que ela não reproduz, mas cria realidades. Em todo caso, parece ocorrer uma identificação de tipo praticamente intuitivo na avaliação do representado como construído e artificial ou como autêntico e natural. A capacidade emocional no desenvolvimento de concepções intuitivas de autenticidade cresce em função do incessante consumo mediático e corresponde talvez a uma necessidade de orientação inequívoca nos diversos graus de realidade e de ficção, apesar de superposições crescentes na construção de categorias como verdadeiro/falso e realidade/jogo. Neste sentido, as emoções contrastam, de certa forma, com processos excessivos de indiferenciação na organização das esferas do real e do ficcional. As imagens televisivas, por exemplo, demandam interpretações mas, de modo geral, elas não ofertam referências inequívocas e o espectador crítico tende a suspeitar que as imagens projetadas se localizam na esfera da simulação.

            Nesta situação emergem estratégias de recepção que podem ser classificadas, segundo o teórico da literatura Siegfried J. Schmidt, como modelizações de experiências de realidade, mediante as quais os diversos receptores – de acordo com os seus contextos vivenciais, as suas disposições e as respectivas socializações mediáticas e de acordo com o seu pertencimento geracional – elaboram espontaneamente referências coerentes para imagens televisivas e para comentários textuais. E – confiando em sua autenticidade, ou desconfiando dela – eles sinalizam indiferença diante de questões referenciais. Trata-se de uma conduta especialmente treinada na experiência com video-clips, construídos sem estrutura narrativa convencional e sem modelo de coerência na apresentação de mundos imagísticos em acelerados cortes sucessivos. Uma recepção bem sucedida resulta, neste caso, precisamente do abandono de condutas recepcionais tradicionais orientadas em causalidade e coerência.

A própria distinção entre original e cópia perde importância no mundo eletrônico do ciberespaço e da simulação computacional. Textos fabricados eletronicamente não possuem natureza fixa quando arquivados de forma provisória, mas adquirem um estatuto manipulável e alterável, tanto em sua estruturação quanto nos seus diversos componentes. Livros, nesta ótica, apresentam-se na qualidade de superfícies textuais elaboradas e arquivadas eletronicamente. O autor como fonte de um saber intencional desaparece, por assim dizer, atrás de programas responsáveis pela elaboração de roteiros para novelas de televisão, por exemplo. Em compensação o desk-top-publishing restaura de modo novo a antiga unidade entre autor, impressor e editor.

            Na cultura comunicativa digital o conceito de simulação desempenha naturalmente um papel significativo, porque o processo computacional passa a ser identificado por muitos autores, especialmente os rotulados de pós-modernos, como forma de desrealização, responsável pela instauração de rupturas entre as esferas espaciais e temporais (Schmidt 1999:282). Segundo tais argumentos, a música, a imagem e a voz produzidas tecnicamente dispensam quaisquer referências miméticas à medida que a realidade e a ficção se aproximam via simulação enquanto processos de construção. Neste sentido, realidades fabricadas sem referência explícita dispensam não só as antigas técnicas culturais da mimese mas igualmente a própria idéia do conhecimento como reprodução de algo anterior e exterior.

A produção sintética de imagens, do ciberespaço e das realidades virtuais e, ainda, a construção de redes comunicacionais complexas enfraquece, além do mais, a própria idéia do sujeito na qualidade de instância privilegiada que ocupa um lugar central. Ainda que nesta situação regularidades e repetições passem a figurar como procedimentos tão essenciais que os próprios critérios de autenticidade e unicidade se tornam indiferentes, o mesmo não pode ser aventado com respeito à dicotomia básica real/irreal. Esse par antagônico não desaparece simplesmente mas, ao contrário, assume novas funções e formas de diferenciação e pluralização na construção de múltiplas realidades, seja na forma de realidades experimentais e de realidades mediáticas, seja na forma de ficção e mimese, de encenação, plágio ou simulação (Schmidt 1999:284).

            Em determinadas esferas e condições, tais pares dicotômicos tradicionais, que acentuam o constraste entre o que é tido por factual ou por ficcional, perdem seu poder explicativo. A passagem de um universo para um pluriverso demanda a construção de categorias muito mais complexas para permitir a modelização de modos de produção de realidades altamente diferenciadas. E é neste momento de emergência de possibilidades de simulação técnica que certas categorias precisam necessariamente atenuar e renegociar o seu estatuto ontológico ao lidar com questões relativas à realidade e à verdade.

            Mesmo se a discussão sobre a chamada desrealização da realidade pela mídia eletrônica assume proporções exageradas e impróprias, a importância desse debate situa-se numa diferenciação mais matizada da questão da realidade – até então tratada como assunto estritamente filosófico – e também numa compreensão alterada pelo olhar sobre práticas cotidianas do nosso consumo mediático, levando em conta a construtividade dos nossos próprios processos cognitivos e comunicacionais.

            Essa questão, afinal milenar em nossa cultura ocidental, reabre outra vez o tão antigo problema epistemológico, agora tematizado pela mídia eletrônica com respeito à significação referencial e à autenticidade no cenário da construção de realidades mediatizadas. (Um dos exemplos citados por Schmidt, o switching, evidencia a nova indiferença relativa a semânticas referenciais a partir da destruição de modos recepcionais típicos da cultura impressa. O lembrete, no caso, vale para a literatura também.)

O hipertexto distingue-se ainda da noção usual de texto pela sua organização discursiva não linear, libertando-se, portanto, do princípio organizativo único – a seqüência – e questionando o próprio estatuto formal do texto fixo e uniforme estruturado segundo princípios de início, meio e fim baseados em conceitos de linearidade e seqüencialidade. Em configurações hipertextuais torna-se difícil ou impossível definir essas marcas, porque inexistem palavras iniciais ou terminais em sentido tradicional e qualquer texto pode transformar-se em multiplicidades. Hipertextos não definem inícios e fins e tampouco outras fronteiras. Inseridos numa rede de outros textos, eles libertam a literatura da idéia da obra como objeto absoluto e fechado. Nesta ótica o hipertexto traduz de modo radical a materialidade da noção de obra aberta que funda a posssibilidade de experimentação ilimitada e, ao mesmo tempo, impõe a seguinte reflexão: se o hipertexto repesenta a inserção de textos particulares em contextos textuais variáveis, permitindo ao usuário mudanças incontroláveis, será que, neste caso, a obra particular, transformada em parte de um complexo diálogo, não perde a sua unicidade e originalidade? Em outras palavras, a possibilidade de ter uma identidade inconfundível em função da qual é confrontada com juízos de valor ? Obviamente propostas tradicionais sobre valor estético sequer entendem essa pergunta.

As conexões eletrônicas alteram também profundamente as experiências estéticas de um texto ao modificar as relações temporais e espaciais com outros textos. Nesta nova condição, todos os textos passam a ter caráter mutante e o leitor, despojado de regras fixas, circula livremente e desenha caminhos possíveis, adaptáveis a vontades e necessidades próprias e, freqüentemente, acidentais. Trata-se de situações inaugurais que modificam ainda os relacionamentos convencionais entre autor e leitor. O hipertexto faculta ao leitor ativo a transformação permanente de textos, o que de certo modo enfraquece a importância da própria instância autoral. Mas não só. Teorias da literatura tradicionais nos induziram a supor a existência de sentidos subjacentes aos próprios textos, vinculados à idéia de uma identidade autoral integrada movida por atos intencionais. A quantidade ilimitada de textos conectáveis em sistemas hipertextuais pressupõe, no entanto, uma existência fundante de textos a partir de incontáveis textos referenciais e, assim, todo texto novo já nasce como tecido de textualidades múltiplas e toda instância autoral que altera e acrescenta elementos, por seu lado, emerge na qualidade de compositor de textos multivocais. E é neste sentido que podemos falar numa conversão do autor em "texto" (Gabriel 1997:74).

Embora problemas deste tipo tivessem feito parte de discussões intensas a partir da introdução de conceitos como intertextualidade, por exemplo, eles ficaram restritos a uma intervenção ativa meramente mental por parte de leitores que, de alguma forma, ainda podiam controlar o diálogo em função do acesso a um repertório variável, mas pessoal. As questões atuais situam-se em outro nível e, penso eu, só podem ser abordadas adequadamente no contexto de uma permanente reconstrução de repertórios teóricos em contato com esferas empíricas concretas, porque o novo circuito demanda a materialização dos elementos envolvidos. A quantidade de textos e produtores conectáveis num sistema hipertextual em rede pressupõe a existência de textos a partir de inúmeros textos referenciais (não apenas verbais) e a partir da intervenção participativa de incontáveis e, sobretudo, incontroláveis parceiros comunicativos. A presença virtual de outros textos e autores no ambiente hipertextual converte assim, de fato, o escrever em gesto cooperativo entre autor e leitor. Em todo o caso, na rede virtual de conexões eletrônicas, textos não oferecem existência palpável e estável, mas esta se dá numa permanente combinação relacional, quando eles são produzidos e/ou recebidos e articulados por indivíduos ocasionais. Neste contexto o questionamento e o desconforto diante da noção de uma subjetividade integrada, atribuídos comumente ao pensamento moderno e especialmente ao pós-moderno, responsabilizados assim pela ruína de um dos alicerces da civilização ocidental, encontram uma espécie de apoio na condição do hipertexto ao radicalizar a nossa consciência de se tratar de uma construção convencional histórica, porque em seu espaço não faz sentido o uso explícito de conceitos de autoria. Nele circulam usuários ativos que criam, em comum, sistemas hipertextuais, ainda que seja impossível promover a presença de todos estes autores colaboradores. Textos inseridos na rede de conexões eletrônicas não existem por si, mas enquanto constelação relacional.

No entanto, a tecnologia do livro, definida pelas regras de nossa cultura, que, por seu lado, define autoria e propriedade intelectual, impede por assim dizer o reconhecimento de autoria cooperativa. Enquanto no campo das ciências naturais se favorece explicitamente uma concepção inclusiva de autoria que permite o crédito a todos os participantes de uma pesquisa, nas ciências humanas prevalece uma espécie de desconfiança estética e emocional em função do próprio valor atribuído ao ato criativo e original que apenas oculta o fato de que artistas e escritores sempre conviveram na companhia estimulante de textos pré- e co-presentes, de uma herança de quase três milênios.

            Parece óbvio que a condição e a circulação do livro, como símbolo de nossa tradição cultural, precisam ser repensadas no âmbito de uma teorização complexa e nova no momento da emergência não só desse tipo de práticas hipertextuais mas, também, diante do surgimento, em escala comercial, dos próprios livros eletrônicos e dos seus imprevisíveis efeitos sobre o charme bucólico do livro impresso antes mencionado.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

BURKHARDT, Roland. Kulturwissenschaft. Wien:Böhlau,1998.

ECO, Umberto. A poética da obra aberta. In: Obra aberta. São Paulo: Perspectiva, 1968, p. 37-66.

GABRIEL, Norbert. Kulturwissenschaften und Neue Medien. Wissensverteilung im  digitalen Zeitalter. Darmstadt: Primus, 1997.

IDENSEN, Heiko. “Die Poesie soll von allen gemacht werden!” In: D. Matejowski e F. Kittler (eds.) Literatur im Informationszeitalter.Frankfurt:Campus, 1996,p.143-184.

MATEJOVSKI, D. e F. Kittler (eds.) Literatur im Informationszeitalter. Frankfurt: Campus, 1996.

QUENEAU, Raymond. Hunderttausend Milliarden Gedichte. Frankfurt/Main: Suhrkamp, 1984.

SCHMIDT, Siegfried J. Die Zähmung des Blicks, Frankfurt: Suhrkamp, 1999.

_____. Kognitive Autonomie und soziale Orientierung. Frankfurt: Suhrkamp, 1994.